Com festa regada a poesia e dendê, Caruru dos 7 Poetas comemora 10 anos

Por Udinaldo Jr.

Foto: Caroline Moraes

Foto: Caroline Moraes

Alimentados por uma conversa com Damário da Cruz, no Pouso da Palavra, João Vanderlei Moraes e Luísa Mahin realizaram em 2004 a primeira reunião do Caruru dos 7 Poetas. Dez anos se passaram e o que foi uma reunião no Zanzibar em Salvador, hoje é um dos maiores recitais do Estado da Bahia e ponto fixo no calendário cultural de Cachoeira. O evento promove o diálogo da literatura com a tradição cultural e religiosa baiana, caruru dos sete meninos, de reverência aos Ibejis e aos santos católicos São Cosme e Damião.

Nessa última edição, realizada nos dias 26 e 27 de setembro, o Caruru contou com inúmeras atividades em uma programação repleta de poesia, comida baiana, lançamento de livros, grupos de teatro e várias performances artísticas. Logo no primeiro dia, para comemorar os 10 anos de evento, houve o lançamento da antologia “Todas as Mãos”, uma coletânea com os principais trabalhos dos poetas que passaram pela trajetória do Caruru.

Para as crianças

Foto: Ary Teixeira

Foto: Ary Teixeira

No dia seguinte, o evento começou com a programação voltada para as crianças. Com o Jardim do Faquir lotado, o Coletivo de poesia Além das 7 Praças e seus ING’s (Indivíduos Não-Governamentais), conduziu a programação que iniciou com o Grupo de Teatro “Frutos da Utopia” da cidade de Governador Mangabeira. O grupo apresentou a peça Rosinha e Sebastião, uma adaptação da literatura de cordel embalada por músicas de Luiz Gonzaga e por figurinos tipicamente sertanejos. Logo depois, o já reconhecido Grupo Rouxinol, realizou uma de suas melhores apresentações.

Criado em julho de 2013, os Rouxinóis são frutos de um projeto denominado “Pintando o sete com a leitura” atuante da Casa de Barro, formado por crianças na faixa etária de 05 a 09 anos.  O objetivo do grupo é estimular a criança ao interesse pela leitura de forma lúdica, explorando a criatividade, usando como instrumento técnicas cênicas do teatro de rua e caixa, e conteúdos de vários gêneros literários. No Caruru, o grupo recitou diversas poesias de baianos e cantarolou cantigas de rodas que, segundo a professora Acely Araújo, foram escolhidas por eles. Enquanto isso, uma Oficina de confecção de fantoches funcionava o dia inteiro. Laise Souza, 28, que mora em São Félix e é mãe da Larissa de 5 anos, ficou encantada com o evento e afirmou achar importante iniciativas como a da Casa de Barro, de preservação da cultura do Recôncavo. Ainda disse que eventos como esses “expandem os olhares das crianças”.

O Caruru

A programação noturna teve como apresentadoras as mulheres do Coletivo Importuno Poético, do mesmo caldo cultural que Além de 7 Praças, nascido em 1999. As poetrizes Cléa Barbosa, Jocélia Fonseca e Lutigarde Oliveira, conduziram a noite intercalando suas performances poéticas com os poetas homenageados da noite. Os sete poetas homenageados nesta edição foram: Alan Félix (Uruçuca), Deisiane Barbosa (Cachoeira), Luar do Conselheiro (Uauá), Marlon Marcos (Salvador), Martin Salas (Cartagena/Colômbia), Marta Galrão (Salvador) e Wancir Sales (Santo Amaro). Ao recitarem suas poesias, os artistas ficaram emocionados por todo clima criado no evento. O jardim do Faquir repleto de pessoas ávidas por poesia, o cenário da roda dos 7 meninos e o Rio Paraguaçu ao lado com toda sua beleza comprovando os encantos de Cachoeira.

Foto: Ary Teixeira

Foto: Ary Teixeira

Logo em seguida o Caruru foi distribuído ao público no local, preparando para os shows da noite. Jurací Magalhães, cantor e compositor nascido na Liberdade – o bairro de Salvador com maior concentração de negros fora do continente africano – iniciou a programação musical com um show que promoveu reflexões sobre temáticas humanas e elementos da identidade cultural afro-brasileira. Gêge Nago, grupo musical cachoeirano de estilo afro-barroco criado em 2004 e segunda atração musical da noite, trouxe em seu repertório influências do sincretismo cultural e religioso do candomblé e catolicismo, traduzido em uma musicalidade própria da cultura popular baiana.

Roberto Mendes, cantor e compositor de Santo Amaro, assim que terminou o pocket show durante o recital, me confidenciou emocionado que “a poesia salvou a palavra”. Apesar de ter encerrado suas atividades na madrugada, uma noite com tamanha beleza e força continuará a flor da pele daqueles que compareceram e partilharam dois dias de intensa programação e de inúmeras poesias com gostinho de dendê.